Discípulo de Burle Marx alerta para a destruição de cactos centenários
 

Armação dos Búzios é conhecida pela exuberância da sua natureza, mesmo depois de décadas de destruição. O que pouca gente sabe é que existem cactos no município com mais de trezentos anos de idade. Espécies que resistem aos parcos 800 milímetros anuais de chuva, a mesma dos sertões, ao vento que sopra inclemente durante 80% do ano, e ao solo pobre e sem nutrientes. É neste ambiente inóspito que plantas guerreiras ainda hoje vivenciam a história desta terra e do seu ecossistema atípico, uma diversidade tão individualizada que até hoje os especialistas não chegaram a um consenso para classificar o ecossistema. E enquanto não surge uma nova denominação, o IBGE chama a vegetação de estepe arbórea aberta, também conhecida como caatinga fluminense, um fragmento da vegetação do semi-árido nordestino. Mas estas plantas que resistem ao desgaste provocado pela passagem do tempo estão ameaçadas de desaparecerem num breve período de tempo. O alerta é do paisagista Ricardo Correia de Araújo, que há trinta anos estuda esta vegetação simbólica, com enorme quantidade de espécies endêmicas, que só existem nesta região do planeta.  

-          O mais importante hoje é preservar os cactos que ainda resistem e não se tirar mais nada. Essas espécies nativas resistem ao vento forte, a condição de sal, nascem na beira das pedras e do mar, mas demoram muito tempo para crescer e estão sujeitas à ação humana – alertou Ricardo. 

Autor de vários jardins buzianos, o paisagista conviveu por vinte anos com o maior compositor de paisagens decorativas de jardins de todos os tempos, Burle Marx. O paisagista acredita que da mesma forma como vem acontecendo com os tubarões no mar, que assustam mesmo quando não atacam, os cactos ainda assombram as pessoas, que não têm qualquer constrangimento em eliminá-los:  

-          A gente vê cada vez menos cactos. Acredito que seja por causa dos espinhos. Quando as pessoas vão construir, ficam com raiva quando se machucam e nem pensam duas vezes, cortam tudo.  

O paisagista alerta que entre diversas preciosidades, a vegetação de Búzios abriga mais de vinte espécies de orquídeas endêmicas, que correm risco de desaparecer definitivamente do planeta. Não por acaso a União Internacional para Conservação da Natureza reconheceu a região como Centro de Diversidade Vegetal, título dado a raros pontos do mundo que resguardam espécies raras e ameaçadas.