PONTO DE VISTA
Quanto ao crescimento sustentado, assunto tão debatido, a coisa absolutamente parece caminhar para o fiasco. Há mais de meio século, Mahatma Gandhi preconizava sobre o assunto: "Que Deus jamais permita que a Índia adote a industrialização à maneira do Ocidente. A Inglaterra precisou de metade dos recursos do planeta para alcançar tal prosperidade. De quantos planetas um país grande como a Índia iria precisar?", indagava, inquieto, o guru da independência indiana.
Gandhi sempre foi um homem de idéias revolucionárias. Seu aviso, por mais exótico que pareça, encontra boa repercussão num cálculo do Fundo Mundial para a Natureza, o WWF. De acordo com a entidade, os 15% mais ricos da humanidade consomem energia e recursos em nível tão alto que providenciar um estilo de vida parecido para o restante dos terráqueos iria requerer nada menos do que 2,6 planetas do tamanho da Terra.
Os anos 80 e 90 foram de imenso crescimento na economia de Búzios. Perversamente, muito dessa prosperidade teve conseqüências desastrosas para o meio ambiente. O projeto de computação gráfica intitulado Búzios 2000, a um passo da destruição, apresentado pelo jornalista e ambientalista Tito Rosemberg ainda no século XX, prevendo através de fotomontagem o previsível futuro de Búzios acaso não fossem adotadas medidas que dessem um basta ao crescimento desordenado, é hoje uma realidade.
Doze anos após o projeto ser apresentado ao público pela primeira vez em matéria publicada pelo Jornal do Brasil no dia 19 de março de 1995 - e logo depois no Globo no dia 15 de maio e no Buziano no dia 16 do mesmo mês -, o crescimento desordenado promovido pela construção civil continua na ordem do dia, provocando sérios danos ao corpo social pela súbita e esquizofrênica corrida imobiliária que se apropriou da cidade.
Cidadãos atentos já cansaram de contabilizar todos os recursos naturais que foram ocupados, privatizados e devastados. Nas praias e costões percebe-se a explosão urbana de Búzios nos últimos doze anos.Surge, então, uma importante discussão: como conciliar tantos interesses conflitantes? É encorajador saber que os dois governos municipais que comandaram a cidade nos últimos anos, perceberam a inevitabilidade do desenvolvimento sustentável que traz a necessidade de profundas e democráticas reflexões, criando e posteriormente revisando a Lei de Uso do Solo e o Plano Diretor. Mas tudo que foi feito é insuficiente.
A história, como escreveu Eça Queiroz em Os Maias - "É uma velhota que se repete sem cessar". Para que daqui há doze anos não retomemos a questão, é preciso descobrir um caminho para que Búzios possa crescer sem destruir a qualidade de vida que a fez famosa.