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Ponta da Lagoinha em Buzios

Verdadeira amostra da história geológica e biológica da formação do continente ocorrida há 500 milhões de anos

Armação dos Búzios é um pequeno município estabelecido sob rochas metamórficas de alto grau. A beleza cênica deste balneário, conhecido por muitos brasileiros e estrangeiros, reside na sua recortada costa rochosa constituída por espetaculares gnaisses do Cambriano. Estes litotipos compõem a Sucessão Búzios, uma unidade que ocorre apenas nesta região. Estudos recentes mostram que estas rochas foram depositadas num fundo marinho por volta de 600 Ma atrás, sendo deformadas e metamorfisadas a alta pressão e temperatura no período Cambriano, mais especificamente entre 525 e 490 Ma. Este evento, jovem em relação aos eventos brasilianos-pan-africanos registrados nas faixas móveis do sudeste e sul do Brasil, foi denominado Orogenia Búzios. O nome foi escolhido em virtude de que as idades mais precisas e dos minerais mais variados foram obtidas no afloramento da Ponta da Lagoinha, no município de Armação dos Búzios.

Placas explicativas do projeto Caminhos GeológicosConsiderando a beleza e importância científica do local, a região foi escolhida em 2001 para receber as primeiras placas explicativas do Projeto Caminhos Geológicos, coordenado pelo Departamento de Recursos Minerais do Estado do Rio de Janeiro (DRM-RJ). Foram produzidas e implantadas seis placas que, em síntese, mostram que a região que hoje abriga o município de Armação dos Búzios fazia parte de uma gigantesca cadeia de montanhas, semelhante ao Himalaia. Na Ponta da Lagoinha, estão as evidências de que a região de Búzios já foi parte de uma paisagem himalaiana. Já na Ponta do Marisco, em Geribá, estão expostas as evidências da abertura do oceano Atlântico, há 130 milhões de anos, e do fim do “Himalaia brasileiro”. As placas explicativas, expostas até hoje, foram sementes que germinaram e floresceram como novos projetos educacionais, turísticos e ambientais cujo pilar fundamental é a geologia. Os roteiros turísticos de Búzios já incluem os pontos de interesse geológico nos seus textos e dicas de visitação.

O sitio geológico da Ponta da Lagoinha é também visitado mensalmente por alunos de geologia das universidades do Rio de Janeiro e de outras brasileiras (USP, Unicamp, etc). Foi ponto de parada nas excursões de campo do 31o International Geological Congress (Heilbron et al., 2003), do IX Simpósio Nacional de Estudos Tectônicos (Schmitt & Trouw, 2003) e, mais recentemente, do Fórum Nacional dos Coordenadores dos Cursos de Graduação em Geologia do Brasil.

Em 17 de outubro de 2003, a Governadora do Estado do Rio de Janeiro assinou o decreto de tombamento provisório de duas áreas de costões rochosos em Armação dos Búzios, com base na proposta do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC), sobre pareceres geológicos, biológicos, históricos e ambientais (Processo E-18/1337/2003). A Faculdade de Geologia da UERJ e o Departamento de Recursos Minerais do Estado do Rio de Janeiro contribuíram com os pareceres geológicos e histórico-ambientais que serviram para o embasamento científico do tombamento desta região, mais especificamente em duas áreas, sendo que uma inclui a Ponta da Lagoinha. De acordo com o INEPAC, as áreas tombadas em Armação dos Búzios “constituem verdadeiras amostras da história geológica e biológica da formação do continente americano, ocorrida há 500 milhões de anos pela colisão de massas continentais, originando uma gigantesca cadeia de montanhas, a Orogenia Búzios – apresentando configuração comparável à da cordilheira do Himalaia” (INEPAC, 2005).

A preservação ambiental dos costões rochosos deve ser planejada com vistas à proteção deste monumento geológico. Trata-se de um museu natural que precisa ser visitado pelas futuras gerações. As rochas desta área têm um valor científico inestimável, pois registram parte da história evolutiva cambriana da formação do Gondwana. A Orogenia Búzios (Schmitt et al., 2004b) foi definida nestes afloramentos, e está sendo correlacionada com áreas na Argentina, Uruguai e na África (Angola e Namíbia). A utilização destes argumentos geológicos para o tombamento de um patrimônio histórico-cultural é uma novidade no Brasil e abre mais um campo para o profissional geólogo atuar como analista ambiental nos processos de tombamento e de preservação.

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